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Deus nos ama “do fundo das suas entranhas”

Homilia de 17 de março de 2021

O capítulo do profeta de Isaías, do qual ouvimos um trecho logo no início desta leitura, merece ser lido e relido porque é muito bonito. Ele é muito bonito e vem se juntar àqueles que às vezes duvidam de Deus.
“O Senhor me abandonou. O Senhor se esqueceu de mim”.
Quantos homens e mulheres podem às vezes ser tentados a pensar que Deus os esqueceu quando oraram e pediram as coisas certas? E se suas orações foram respondidas, não foram respondidas como gostariam. Eles podem até pensar que Deus é surdo aos seus apelos.
A estes, o profeta Isaías responde o que ele próprio experimentou, ou seja, esta ligação visceral de Deus a nós, homens que oramos a ele. O profeta tem esta expressão, após descrever a agitação daqueles que acreditam ter sido abandonados:
“Pode a mulher esquecer seu filho? Não tem mais ternura pelo filho do seu ventre? Mesmo que ela tenha esquecido, eu não esquecerei. »
Descobrimos ali o que hoje chamamos de empatia, compaixão. Sentimentos que são homenageados pela nossa geração porque quase nos convidam a nos colocar no lugar do outro e a nos juntar a ele, como se fosse por dentro. O hebraico, para falar desta compaixão, desta misericórdia de Deus, tem este termo “RaHaMîn” que nos fala de um amor que vem das entranhas, um amor que vem até nós do profundo do nosso ser. E quando somos tocados nas entranhas então entendemos o que pode ser o amor de misericórdia e compaixão. O amor cheio de ternura e fidelidade nos diz o salmo que segue a primeira leitura, o salmo 144.
“O Senhor é terno e misericordioso
Lento para a raiva e cheio de amor
A bondade do Senhor é por nós
Sua ternura por todas as suas obras…”

Quando sabemos que Deus nos ama com um amor de ventre, divino se assim posso dizer, nesta mesma lógica das Escrituras, isto talvez nos faça ouvir de outra forma esta oração da Ave Maria quando evocamos “E Jesus, bendito é o fruto do teu ventre”. Maria amando Cristo com todo o seu ser, incluindo o seu ventre.
O grande risco seria acreditar que só existiriam mulheres que tivessem entranhas e que pudessem amar assim. Se você está profundamente mimado com esta profundidade do seu ser, as Escrituras nos lembram que é "todo homem, homem e mulher" que têm entranhas: portanto o homem é bastante capaz.
Vemos isso na própria vida de Jesus que, muitas vezes, se sente comovido e tocado nas suas entranhas.
“Ao desembarcar, ele viu uma grande multidão. Ele foi tomado de pena, tocado nas entranhas por esta multidão e pelos aleijados que estavam no coração desta multidão. » (Mateus, 14) Somos chamados, como baptizados, como cristãos, a deixar-nos tocar, a ser levados no nosso modo de amar até nas nossas entranhas.
“Vós, portanto, eleitos de Deus, seus santos e seus amados, revesti-vos de entranhas de misericórdia, bondade, humildade, mansidão, paciência. »(Colossenses, 3).

Amar assim, com as nossas entranhas, o que nos rodeia. Como não pensar nisso neste dia em que comemoramos aniversário de casamento… Amar-nos com tanto amor entre os cônjuges, no mais íntimo do nosso ser.
Amar uns aos outros com a família, amar uns aos outros com os entes queridos, mostrar compaixão pelos que nos rodeiam, seja no trabalho ou na vida social. E como por ondas de repercussões, levar esse amor pelas entranhas no olhar que levamos para tal ou tal país.
É difícil vibrar da mesma forma com todas as misérias que, infelizmente, ainda marcam o nosso mundo através de guerras, injustiças e fomes. Mas como não ter uma atenção e simpatia mais particular por um país ao qual nos é dado ter um olhar aberto e uma consciência esclarecida?
Poderia ser interessante perguntar-nos, no coração da Quaresma, que país hoje nos faz vibrar particularmente, com o qual estamos em comunhão de entranhas. Quer se trate da Síria, da Líbia, do Afeganistão, de um país de África ou do Iraque, ao qual o nosso Papa nos trouxe tão perto ao longo da sua viagem.
Perguntemo-nos de quem nos sentimos próximos ou próximos na forma de acompanhar as notícias e investir nelas. Assim nos uniremos a esta expressão que o profeta Isaías usa daquele que é anunciado, que nos abre “uma aliança de multidões”.
Se tivermos entranhas apenas para os nossos entes queridos, não estaremos numa aliança de multidões. Se estivermos próximos apenas dos nossos familiares, não estaremos nesta aliança de multidões.

O Bom Pastor, mosaico do Padre Marko Rupnik

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